Publicado por: Pedro Tavares | 30/03/2010

A paixão de Cristo segundo o Evangelho de São João

“A Páscoa de Jesus pode inspirar nossa passagem por este mundo”

Entrevista com Lúcia Weiler

IHU On-Line – Qual é a importância e a inovação de discutir esse assunto num ambiente acadêmico, sobretudo na época que antecede a Páscoa?
Lúcia Weiler – O debate sobre este assunto Paixão de Jesus Cristo, nas vésperas da festa da Páscoa, num espaço acadêmico é, a meu ver, de suma importância por causa do papel crítico e do serviço que a universidade é chamada a prestar para a humanidade. Independente de ser ou não ser cristão, a morte violenta de um homem inocente, suspenso numa cruz, pelo poder do Império Romano, no primeiro século de nossa era, deve ser lembrada. Essa lembrança é, por um lado, uma memória crítica que gera resistência e protesto, contra todas as formas de mortes violentas, que persistem até hoje. É, porém, uma memória afetiva solidária, que alimenta a mística e o compromisso com a dignidade da vida, tantas vezes ameaçada ainda hoje, no século XXI.  O teólogo alemão Metz , um dos protagonistas da teologia política e teologia da esperança na Europa, cunhou esta “lembrança” chamando-a de “memória perigosa”.

Papel da universidade é formar consciência crítica
Neste tempo que antecede a Páscoa tanto a mídia quanto o comércio poluem  as mentes e os  sentimentos das pessoas, com uma enorme bagagem de informações, sensacionalismos e manipulações ideológicas, seja de cunho religioso ou econômico. A festa da Páscoa, que originalmente significa passagem da escravidão para a libertação, provoca, assim, o efeito contrário. Escraviza em vez de libertar.  Ora, um papel importante da universidade é formar a consciência crítica, como pressuposto para as opções éticas em todos os setores e dimensões, neste caso, na dimensão religiosa, ou teológica. Olhando mais especificamente para o relato da Paixão de Jesus Cristo segundo o Evangelho de São João, devo dizer que esta é uma pérola literária e teológica que antes é uma realidade a ser meditada do que discutida.  E penso que o ambiente acadêmico, por vezes extremamente atrelado ao racional-científico, necessita desses “espaços-oásis”, para meditar nos grandes mistérios da fé que são os mistérios da vida.  A vida humana é toda ela pascal.  Isto é, passagem. A Páscoa de Jesus pode inspirar nossa passagem por este mundo.

IHU On-Line – Como podemos pensar uma hermenêutica feminista relacionada à Paixão de Cristo segundo o Evangelho de São João?
Lúcia Weiler – Pensar uma hermenêutica feminista relacionada à Paixão de Cristo, segundo o Evangelho de São João é, antes de tudo, um desafio e um compromisso.  Desafio, porque quase não estamos acostumados a usar chaves interpretativas feministas em textos sagrados, considerados patrimônio da tradição religiosa cristã, como é o relato da Paixão de Jesus Cristo.  Compromisso, porque, se perseguimos o fio da história, percebemos que mulheres tornaram-se solidárias e ficaram ao lado das vítimas, defendendo a vida e protestando contra a morte violenta. E na história sagrada da Bíblia não foi diferente. Veja-se, por exemplo,  a brevíssima história de Rispá, concubina de Saul,  que no tempo da monarquia davídica, precisa entregar dois de seus filhos para serem sacrificados, juntamente com 5 netos de Saul, por causa da ambição de poder. E esta morte violenta de 7 homens israelitas é planejada e executada em nome de Deus. Rispá não se conforma com essa morte violenta e os corpos expostos. Assume uma atitude silenciosa com sua presença corajosa e perseverante de  protesto. O texto diz:
“Então Rispá, filha de Aiá, tomou um pano de cilício, e estendeu-o sobre uma pedra, desde o princípio da colheita, até que a água do céu caiu sobre eles. Ela não deixou as aves do céu pousarem sobre eles durante o dia, nem os animais do campo durante a noite. ” (2 Samuel, 21,10).
Mais que uma história, a presença solidária desta mulher, que certamente teve apoio de muitas outras mulheres e dos pobres que vinham respigar as sobras das colheitas foi capaz de reverter um relato de violência sangrenta, numa história de resistência místico-profética. A presença de Rispá (2Sam 3,7; 21, 8-11) transforma uma história de guerra e de morte, em “história sagrada” de  protesto contra a morte violenta de anúncio da  dignidade dos corpos, da vida  e de uma  morte digna. O alcance deste protesto vai desde o religioso até o âmbito político.

Presença solidária das mulheres
Voltando ao nosso assunto, percebemos que os quatro relatos da Paixão – Morte  e Ressurreição, registrados   nos Evangelhos,  dão testemunho desta presença solidária  de mulheres, que assumem uma postura  colocando-se ao lado da  vítima inocente. No caso específico do Evangelho segundo São João, o interessante é a moldura criada pelo redator, colocando todo relato entre dois jardins: Um que ficava perto do riacho do Cedron (18, 1-14) marca o início da Paixão; e outro, para marcar o final, lembra que no próprio lugar onde Jesus “fora crucificado, havia um jardim, onde estava um túmulo em que ninguém  ainda tinha sido sepultado” (Jo 18,41-42).  Essa moldura do Jardim lembra a primeira criação e a nova criação. E será uma mulher, Maria Madalena, que vai encontrar e anunciar esta novidade que ressurge neste “Jardim” (cf. Jo 20, 1-18).
Reler a Paixão de Cristo com uma chave hermenêutica feminista pode ajudar-nos a descobrir uma nova relação com os textos e os corpos sagrados da vida e da Bíblia.

IHU On-Line – Qual é o papel conferido às mulheres no Evangelho de São João? Como elas ajudam a contar a história da Paixão de Cristo?
Lúcia Weiler – As mulheres no Evangelho de João desempenham um papel fundamental na progressão narrativa da Boa Notícia. Há biblistas, como Milton Schwantes , Elza Tames , que levantam a suspeita de que o caldo cultural do Evangelho de João foi preparado com temperos vindos das mãos de mulheres. Não que mulheres tenham escrito o Evangelho. Mas à semelhança de Sócrates , que é um grande filósofo, e cuja teoria filosófica conhecemos, nada escreveu pessoalmente, também Jesus nada escreveu. Assim podemos acreditar nesta mesma possibilidade de encontrarmos de modo predominante, no Evangelho de João, uma cultura de mulheres. Várias reflexões, como a da teóloga uruguaia, Tereza Porcille, abriram nossos olhos para esta presença positiva das mulheres, tecendo o fio dourado da “hora de Jesus”, que é a hora da sua Paixão – Glorificação, no Evangelho de João. A presença de mulheres é destacada em sete cenas decisivas do Evangelho: 1) Jo 2,1-11- A mulher, nas Bodas em Cana da Galiléia, provoca a primeira menção da “hora” que ainda não chegou, mas está  iniciando com o princípio do programa dos sinais de vida; 2) Jo 4, 1-42- Uma mulher samaritana dialoga com Jesus sobre questões hermenêuticas do culto e da teologia; 3) Jo 11, 21-27- Marta, proclama sua profissão de fé messiânica no Cristo Ressurreição e Vida;   4) Jo 12, 1-3-  Maria de Betânia, a amiga, unge Jesus para a sua hora suprema; 5) Jo 16,21- A mulher, na hora do parto, é símbolo do sofrimento articulado com a alegria que gera o novo;  6) Jo 19,25-27- A mulher, mãe de Jesus, que já estava presente na festa da aliança (Jo 2,1-12) agora está aqui de pé,  solidária na hora da dor e da morte de cruz de Jesus e os dois crucificados com ele ; 7) Jo 20,1-18- Maria Madalena vai à procura  daquele que foi depositado como morto no Jardim e se encontra com o Mestre vivo  que a chama e envia a anunciar a Boa Notícia da Vida Nova. É uma cena que se assemelha muito com a mulher no Cântico dos Cânticos (Ct 3, 1-6) que vai em busca de seu amado e não desiste até encontrá-lo.
Essas mulheres, na comunidade do Discípulo Amado,  ajudam sim  a contar a história da Paixão de Cristo, porque tecem os fios da “hora” ao longo do Evangelho. Estes fios se entrelaçam e culminam no relato da paixão-morte – glorificação-vida, que encontramos nos capítulos finais Jo 18-20.

IHU On-Line – Como as mulheres de hoje inserem-se na escrita da história das religiões?
Lúcia Weiler – A pergunta que me acompanha sempre é esta: O que significa escrever uma história? É certo que muito mais do que as canetas, as máquinas datilográficas e os computadores, são os corpos humanos, os corpos sociais, o corpo da criação os sujeitos e agentes da escrita de qualquer história e sobretudo da história das religiões. Há um número incontável de histórias escritas por mulheres, muitas vezes privadas do direito de ler e escrever, consideradas “analfabetas”. A resposta a esta pergunta pode ser ilustrada também com a história contada pelas mulheres que entraram na Aracruz Celulose. A mídia criticou. Como esta mesma mídia teria reagido ao ver Jesus com um chicote na mão, derrubando as mesas dos cambistas e jogando ao chão o lucro dos que exploravam o templo? (cf. Jo 2,  13-25). Nancy Cardoso Pereira  escreveu um impressionante relato dessa história de protesto contra os mecanismos de morte e de resistência profética a favor da vida.  Este texto pode ser encontrado no sitio do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) www.cebi.org.br.
Outras histórias continuam sendo escritas pelas Mães da Praça de Maio , cujo protesto silencioso, não-violento, mas perseverante, já passou a ter um alcance religioso-litúrgico e sociopolítico.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto que não questionamos?
Lúcia Weiler – A pergunta que sempre é feita ao relato da Paixão segundo João é se ele não teologizou demais a vida de Jesus, idealizando a cruz e tirando dela todo sinal de  crueldade e violência. E isso provoca reações de simpatia ou de antipatia a este evangelho. Exatamente o oposto do filme A paixão de Cristo , que optou por mostrar o lado contrário. Também este recebe seus adeptos e seus adversários. Será um bom assunto para debater como vejo na programação no dia 5 de abril com Prof. Dr. Inácio Neutzling e Prof. Dr. José Alberto Baldissera.
Numa de suas meditações sobre “a cruz nossa de cada dia: fonte de vida e de ressurreição”, Leonardo Boff  aponta para uma interessante chave de releitura da Paixão de Jesus, a partir das crises de sua vida. Três lógicas se entrelaçam neste processo hermenêutico: a lógica do “grão de trigo” que precisa morrer para dar fruto (Jo 12, 23-24); a lógica do “príncipe deste mundo” (Jo 12,31) que é o responsável o culpado da morte de Jesus; a lógica do “seguimento de Jesus” (Jo 12,27), que pede de cada um tomar sua cruz e entregar sua vida por amor, na liberdade, como ele.
Enfim, quero retomar o que dizia no início: este assunto é mais para ser meditado que discutido. E um bom momento de meditação será a audição comentada da Paixão segundo João – BWV 245 – de Johan Sebastian Bach, que consta na programação da Páscoa 2006 do IHU no dia 7 de abril, com a presença qualificada da Prof.ª Dr.ª Yara Borges Caznok, da UNESP.
Oxalá este empenho por uma releitura multifacetária da Paixão de Jesus Cristo nos ajude a  assumir, com maior solidariedade e esperança de vida nova, a paixão do povo, a nossa paixão,  que continua hoje!

(Fonte: Unisinos – www.unisinos.br/ihu)

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