Publicado por: Flávio Mussa Tavares | Junho 23, 2009

Santa Marina (parte II)

Levantar os arquivos da vida de Santa Marina não foi muito simples. Ela é pouco conhecida até mesmo entre os católicos. Tenho uma amiga que é freira e mora em Roma. Eu escrevi para ela na época em que fiz as pesquisas sobre esta grande personalidade cristã e fui agraciado com uma série de fotocópias de algumas biografias encontradas nas bibliotecas do Vaticano.

Na semana passada, eu contei que Marina iniciou um trabalho com crianças e idosos nas cercanias do Mosteiro de Alexandria, no Egito. Ali, o menino que ela criava, cresceu até a idade de quatro anos, quando foi acometido de violenta gripe que fatalmente o vitimou. As condições em que eles viviam não eram adequadas, pois a região era úmida e fria. Todavia esse fato não abateu a jovem que vivia em hábitos de monge. Certo dia, uma senhora pobre a procurou com o seu filho ardendo em febre. “Irmão Marinho, no Mosteiro não quiseram me receber, mas meu filho está muito mal.”

Marina orou com fé e a saúde do pequeno se restituiu. A notícia se espalhou e era comum ver no humilde casebre, romarias em busca de saúde para o corpo e paz para o espírito. Plantaram hortas, pomares, um horto e criavam-se pequenos animais. Era uma pioneira experiência de vida religiosa ativa.

Excluída da vida contemplativa, seguiu a sua intuição e abraçou as dores dos pobres e enfermos. A sua vida missionária teria durado cerca de dez anos. Ao fim desse período, embora ainda jovem, estava enfraquecida e doente. Seu leito foi cercado por toda a comunidade que orava fervorosamente para sua cura. Até mesmo os irmãos do mosteiro, percebendo a sua extrema penúria e reconhecendo o valor da sua alma verdadeiramente piedosa, solicitaram o perdão do prior para a mesma.

Este reviu a sua posição e permitiu que trouxessem a esquálida enferma (para eles o Frei Marinho) para o interior do Mosteiro, onde estaria protegida do frio intenso. Ali ela viveu os seus últimos dias, a todos perdoando e legando lições de humildade e renúncia quase inacessíveis ao ser humano comum.

Quando finalmente ela morre, os irmãos têm uma surpresa assombrosa. Preparando-a para os funerais, reconhecem a sua condição feminina. Contam então para o Prior, que imediatamente ordenou a pompa de um funeral real. Ela foi reabilitada somente após a sua morte. Seus feitos durante seu exílio foram relatados aos superiores e conta-se que a sua canonização se deu sem nenhuma objeção.

Para quem se interessar por mais detalhes desta impressionante história, eu publiquei um livro no ano passado: “Célia Lúcius, Santa Marina”, que apresenta documentos históricos e fotos da devoção a esta mulher impressionantemente maravilhosa.

Publicado por: Flávio Mussa Tavares | Junho 13, 2009

Santa Marina (parte I)

É comum escutar o nome Santa Marina associado a uma conhecida marca de aparelhos de jantar em peças de vidro resistente.

É, no entanto, pouquíssimo ou nada conhecida a personagem canonizada pela Igreja Católica no século V. Sua história ficou conhecida no ocidente a partir do século XI quando suas relíquias foram trazidas para Veneza por Godofredo de Bouillon, o herói da primeira cruzada. Em ação política na cidade de Alexandria, no Egito, descobriu ele o culto popular a esta desconhecida personagem e encantou-se com a sua história. Descobriu o nobre bolonhês que a estranha moça internara-se num mosteiro católico na cidade de Alexandria provavelmente no segundo século e lá vivera um drama comovente.

De provável origem nobre, a moça ficara órfã e para proteger-se da maldade dos homens travestiu-se de homem e asilou-se num monastério cristão. A história de Santa Marina espalhou-se pelos arredores de Alexandria e pelo chamado arco Mediterrâneo, convertendo-se num mito. É reconhecida em Alexandria, no Líbano, na Europa oriental e em Veneza. A sua biografia é encontrada nas línguas árabe, siríaco, italiano, espanhol e inglês. É venerada pelos católicos, maronitas, ortodoxos russos e ortodoxos gregos. Os Mosteiros de então eram exclusivamente para homens. Ela vestiu-se como o pai, que era também religioso. Apresentando as credenciais paternas, foi aceita na clausura como um jovem emberbe sob o nome de Frade Marinho. Foi submetida então aos duros encargos de um noviço, da limpeza à provisão do monastério.

Era encarregada de periodicamente deixar a sua cela e encaminhar-se à cidade mais próxima para comprar mantimentos. As distâncias eram percorridas a pé. Periodicamente então, ela caminhava alguns quilômetros celeremente para adquirir os gêneros alimentícios para a comunidade. Pernoitava na estalagem do próprio fornecedor e retornava no dia seguinte ao convento. Moravam nesta estalagem o dono e sua filha. Esta se encantou com o jovem noviço e declarou-se para “ele”. Naturalmente, Marina esquivou-se da sedução, dizendo-se fiel aos seus votos. Tempos depois, a inquieta moça engravida e conta ao seu pai, o estalajadeiro, que havia sido seduzida pelo frade Marinho nos seus pernoites na estalagem.

O fornecedor vai imediatamente comunicar o fato ao prior do convento. O Frei Marinho é acusado diante de todos os frades e não se defende. É expulso da comunidade e quando nasce o bebê, o prior permite que ele more num casebre frio com o pequeno, sem no entanto ter direito algum na irmandade. Ali o Irmão Marinho criou o seu “filho”, plantou um pomar e fundou uma pequena escola…  (continuaremos)

Publicado por: Pedro Tavares | Maio 17, 2009

Mãe

Aula do dia 17 de maio de 2009.
Sala Carlinhos. Mocidade Espírita Maria Zenith Pessanha.

Maria de Nazaré

Maria

Junto da cruz, o vulto agoniado de Maria produzia dolorosa e indelével impressão.

 Com o pensamento ansioso e torturado, olhos fixos no madeiro das perfídias humanas, a ternura materna regredia ao passado em amarguradas recordações.

 Ali estava, na hora extrema, o filho bem-amado. Maria deixava-se ir na corrente infinda das lembranças. Eram as circunstâncias maravilhosas em que o nascimento de Jesus lhe fora anunciado, a amizade de Isabel, as profecias do velho Simeão, reconhecendo que a assistência de Deus se tornara incontestável nos menores detalhes de sua vida. Naquele instante supremo, revia a manjedoura, na sua beleza agreste, sentindo que a Natureza parecia desejar redizer aos seus ouvidos o cântico de glória daquela noite inolvidável. Através do véu espesso das lágrimas, repassou, uma por uma, as cenas da infância do filho estremecido, observando o alarma interior das mais doces reminiscências.

 Nas menores coisas, reconhecia a intervenção da Providência celestial; entretanto, naquela hora, seu pensamento vagava também pelo vasto mar das mais aflitivas interrogações.

 Que fizera Jesus por merecer tão amargas penas? Não o vira crescer de sentimentos imaculados, sob o calor de seu coração? Desde os mais tenros anos, quando o conduzia à fonte tradicional de Nazaré, observava o carinho fraterno que dispensava a todas as criaturas. Freqüentemente, ia buscá-lo nas ruas empedradas, onde a sua palavra carinhosa consolava os transeuntes desamparados e tristes. Viandantes misérrimos vinham a sua casa modesta louvar o filhinho idolatrado, que sabia distribuir as bênçãos do Céu. Com que enlevo recebia os hóspedes inesperados que suas mãos minúsculas conduziam à carpintaria de José!… Lembrava-se bem de que, um dia, a divina criança guiara a casa dois malfeitores publicamente reconhecidos como ladrões do vale de Mizhep.

 E era de ver-se a amorosa solicitude com que seu vulto pequenino cuidava dos desconhecidos, como se fossem seus irmãos. Muitas vezes, comentara a excelência daquela virtude santificada, receando pelo futuro de seu adorável filhinho.

 Depois do caricioso ambiente doméstico, era a missão celestial, dilatando-se em colheita de frutos maravilhosos. Eram paralíticos que retomavam os movimentos da vida, cegos que se reintegravam nos sagrados dons da vista, criaturas famintas de luz e de amor que se saciavam na sua lição de infinita bondade.

 Que profundos desígnios haviam conduzido seu filho adorado à cruz do suplício?

 Uma voz amiga lhe falava ao Espírito, dizendo das determinações insondáveis e justas de Deus, que precisam ser aceitas para a redenção divina das criaturas.

 Seu coração rebentava em tempestades de lágrimas irreprimíveis; contudo, no santuário da consciência, repetia a sua afirmação de sincera humildade: “Faça-se na escrava a vontade do Senhor!”

 De alma angustiada, notou que Jesus atingira o último limite dos padecimentos inenarráveis. Alguns dos populares mais exaltados multiplicavam as pancadas, enquanto as lanças riscavam o ar, em ameaças audaciosas e sinistras. Ironias mordazes eram proferidas a esmo, dilacerando-lhe a alma sensível e afetuosa.

 Em meio de algumas mulheres compadecidas, que lhe acompanhavam o angustioso transe, Maria reparou que alguém lhe pousara as mãos, de leve, sobre os ombros.

 Deparou-se-lhe a figura de João que, vencendo a pusilanimidade criminosa em que haviam mergulhado os demais companheiros, lhe estendia os braços amorosos e reconhecidos. Silenciosamente, o filho de Zebedeu abraçou-se àquele triturado coração maternal. Maria deixou-se enlaçar pelo discípulo querido e ambos, ao pé do madeiro, em gesto súplice, buscaram ansiosamente a luz daqueles olhos misericordiosos, no cúmulo dos tormentos. Foi aí que a fronte do divino supliciado se moveu vagarosamente, revelando perceber a ansiedade daquelas duas almas em extremo desalento.

 “Meu filho! Meu amado filho!“, exclamou a mártir, em aflição diante da serenidade daquele olhar de melancolia intraduzível.

 O Cristo pareceu meditar no auge de suas dores, mas, como se quisesse demonstrar, no instante derradeiro, a grandeza de sua coragem e a sua perfeita comunhão com Deus, replicou com significativo movimento dos olhos vigilantes:

 “Mãe, eis aí teu filho!“ E dirigindo-se, de modo especial, com um leve aceno, ao apóstolo, disse:

 “Filho, eis aí tua mãe!”

 Maria envolveu-se no véu de seu pranto doloroso, mas o grande evangelista compreendeu que o Mestre, na sua derradeira lição, ensinava que o amor universal era o sublime coroamento de sua obra. Entendeu que, no futuro, a claridade do Reino de Deus revelaria aos homens a necessidade da cessação de todo egoísmo e que, no santuário de cada coração, deveria existir a mais abundante cota de amor, não só para o círculo familiar, senão também para todos os necessitados do mundo, e que no templo de cada habitação permaneceria a fraternidade real, para que a assistência recíproca se praticasse na Terra, sem serem precisos os edifícios exteriores, consagrados a uma solidariedade claudicante.

 Por muito tempo, conservaram-se ainda ali, em preces silenciosas, até que o Mestre, exânime, fosse arrancado à cruz, antes que a tempestade mergulhasse a paisagem castigada de Jerusalém num dilúvio de sombras.

 Após a separação dos discípulos, que se dispersaram por lugares diferentes, para a difusão da Boa Nova, Maria retirou-se para a Betanéia , onde alguns parentes mais próximos a esperavam com especial carinho.

 Os anos começaram a rolar, silenciosos e tristes, para a angustiada saudade de seu coração.

 Tocada por grandes dissabores, observou que, em tempo rápido, as lembranças do filho amado se convertiam em elementos de ásperas discussões, entre os seus seguidores. Na Batanéia, pretendia-se manter uma certa aristocracia espiritual, por efeito dos laços consangüíneos que ali a prendiam, em virtude dos elos que a ligavam a José. Em Jerusalém, digladiavam-se os cristãos e os judeus, com veemência e acrimônia. Na Galiléia, os antigos cenáculos simples e amoráveis da Natureza estavam tristes e desertos.

 Para aquela mãe amorosa, cuja alma digna observava que o vinho generoso de Caná se transformara no vinagre do martírio, o tempo assinalava sempre uma saudade maior no mundo e uma esperança cada vez mais elevada no céu.

 Sua vida era uma devoção incessante ao rosário imenso da saudade, às lembranças mais queridas. Tudo que o passado feliz edificara em seu mundo interior revivia na tela de suas lembranças, com minúcias somente conhecidas do amor, e lhe alimentavam a seiva da vida.

 Relembrava o seu Jesus pequenino, como naquela noite de beleza prodigiosa, em que o recebera nos braços maternais, iluminado pelo mais doce mistério.

 Figurava-se-lhe escutar ainda o balido das ovelhas que vinham, apressadas acercar-se do berço que se formara de improviso.

 E aquele primeiro beijo, feito de carinho e de luz? As reminiscências envolviam a realidade longínqua de singulares belezas para o seu coração sensível e generoso. Em seguida, era o rio das recordações desaguando, sem cessar, na sua alma rica de sentimentalidade e ternura. Nazaré lhe voltava à imaginação, com as suas paisagens de felicidade e de luz. A casa singela, a fonte amiga, a sinceridade das afeições, o lago majestoso e, no meio de todos os detalhes, o filho adorado, trabalhando e amando, no erguimento da mais elevada concepção de Deus, entre os homens da Terra. De vez em quando, parecia vê-lo em seus sonhos repletos de esperança. Jesus lhe prometia o júbilo encantador de sua presença e participava da carícia de suas recordações.

 A esse tempo, o filho de Zebedeu, tendo presentes as observações que o Mestre lhe fizera da cruz, surgiu na Batanéia, oferecendo àquele espírito saudoso de mãe o refúgio amoroso de sua proteção. Maria aceitou o oferecimento, com satisfação imensa.

 E João lhe contou a sua nova vida. Instalara-se definitivamente em Éfeso, onde as idéias cristãs ganhavam terreno entre almas devotadas e sinceras. Nunca olvidara as recomendações do Senhor e, no íntimo, guardava aquele título de filiação como das mais altas expressões de amor universal para com aquela que recebera o Mestre nos braços veneráveis e carinhosos. Maria escutava-lhe as confidências, num misto de reconhecimento e de ventura.

 João continuava a expor-lhe os seus planos mais insignificantes. Levá-la-ia consigo, andariam ambos na mesma associação de interesses espirituais. Seria seu filho desvelado, enquanto receberia de sua alma generosa a ternura maternal, nos trabalhos do Evangelho. Demorara-se a vir, explicava o filho de Zebedeu, porque lhe faltava uma choupana, onde se pudessem abrigar; entretanto, um dos membros da família real de Adiabene, convertido ao amor do Cristo, lhe doara uma casinha pobre, ao sul de Éfeso, distando três léguas aproximadamente da cidade. A habitação simples e pobre demorava num promontório, de onde se avistava o mar. No alto da pequena colina, distante dos homens e no altar imponente da Natureza, se reuniriam ambos para cultivar a lembrança permanente de Jesus. Estabeleceriam um pouso e refúgio aos desamparados, ensinariam as verdades do Evangelho a todos os Espíritos de boa-vontade e, como mãe e filho, iniciariam uma nova era de amor, na comunidade universal.

 Maria aceitou alegremente.

 Dentro de breve tempo, instalaram-se no seio amigo da Natureza, em frente do oceano. Éfeso ficava pouco distante; porém, todas as adjacências se povoavam de novos núcleos de habitações alegres e modestas. A casa de João, ao cabo de algumas semanas, se transformou num ponto de assembléias adoráveis, onde as recordações do Messias eram cultuadas por espíritos humildes e sinceros.

 Maria externava as suas lembranças. Falava dele com maternal enternecimento, enquanto o apóstolo comentava as verdades evangélicas, apreciando os ensinos recebidos. Vezes inúmeras, a reunião somente terminava noite alta, quando as estrelas tinham maior brilho. E não foi só. Decorridos alguns meses, grandes fileiras de necessitados acorriam ao sítio singelo e generoso. A notícia de que Maria descansava, agora, entre eles, espalhara um clarão de esperança por todos os sofredores. Ao passo que João pregava na cidade as verdades de Deus, ela atendia, no pobre santuário doméstico, aos que a procuravam exibindo-lhe suas úlceras e necessidades.

 Sua choupana era, então, conhecida pelo nome de “Casa da Santíssima”.

 O fato tivera origem em certa ocasião, quando um miserável leproso, depois de aliviado em suas chagas, lhe osculou as mãos, reconhecidamente murmurando:

 “Senhora, sois a mãe de nosso Mestre e nossa Mãe Santíssima!”

 A tradição criou raízes em todos os espíritos. Quem não lhe devia o favor de uma palavra maternal nos momentos mais duros? E João consolidava o conceito, acentuando que o mundo lhe seria eternamente grato, pois fora pela sua grandeza espiritual que o Emissário de Deus pudera penetrar a atmosfera escura e pestilenta do mundo para balsamizar os sofrimentos da criatura. Na sua humildade sincera, Maria se esquivava às homenagens afetuosas dos discípulos de Jesus, mas aquela confiança filial com que lhe reclamavam a presença era para sua alma um brando e delicioso tesouro do coração. O título de maternidade fazia vibrar em seu espírito os cânticos mais doces. Diariamente, acorriam os desamparados, suplicando a sua assistência espiritual. Eram velhos trôpegos e desenganados do mundo, que lhe vinham ouvir as palavras confortadoras e afetuosas, enfermos que invocavam a sua proteção, mães infortunadas que pediam a bênção de seu carinho.

 “Minha mãe, dizia um dos mais aflitos, como poderei vencer as minhas dificuldades? Sinto-me abandonado na estrada escura da vida”.

 Maria lhe enviava o olhar amoroso da sua bondade, deixando nele transparecer toda a dedicação enternecida de seu espírito maternal.

 “Isso também passa!”, dizia ela carinhosamente, “só o Reino de Deus é bastante forte para nunca passar de nossas almas, como eterna realização do amor celestial.”

 Seus conceitos abrandavam a dor dos mais desesperados, desanuviavam o pensamento obscuro dos mais acabrunhados.

 A igreja de Éfeso exigia de João a mais alta expressão de sacrifício pessoal, pelo que, com o decorrer do tempo, quase sempre Maria estava só, quando a legião humilde dos necessitados descia o promontório desataviado, rumo aos lares mais confortados e felizes. Os dias e as semanas, os meses e os anos passaram incessantes, trazendo-lhe as lembranças mais ternas. Quando sereno e azulado, o mar lhe fazia voltar à memória o Tiberíades distante. Surpreendia no ar aqueles perfumes vagos que enchiam a alma da tarde, quando seu filho, de quem nem um instante se esquecia, reunindo os discípulos amados, transmitia ao coração do povo as louçanias da Boa Nova. A velhice não lhe acarretara nem cansaços nem amarguras. A certeza da proteção divina lhe proporcionava ininterrupto consolo.

 Como quem transpõe o dia em labores honestos e proveitosos, seu coração experimentava grato repouso, iluminado pelo luar da esperança e pelas estrelas fulgurantes da crença imorredoura. Suas meditações eram suaves colóquios com as reminiscências do filho muito amado.

 Súbito, recebeu notícias de que um período de dolorosas perseguições se havia aberto para todos os que fossem fiéis à doutrina do seu Jesus divino. Alguns cristãos banidos de Roma traziam a Éfeso as tristes informações. Em obediência aos éditos mais injustos, escravizavam-se os seguidores do Cristo, destruíam-se-lhes os lares, metiam-nos a ferros nas prisões. Falava-se de festas públicas, em que seus corpos eram dados como alimento a feras insaciáveis, em horrendos espetáculos.

 Então, num crepúsculo estrelado, Maria entregou-se às orações, como de costume, pedindo a Deus por todos aqueles que se encontrassem em angústias do coração, por amor de seu filho.

 Embora a soledade do ambiente, não se sentia só: uma como força singular lhe banhava a alma toda. Aragens suaves sopravam do oceano, espalhando os aromas da noite que se povoava de astros amigos e afetuosos e, em poucos minutos, a lua plena participava, igualmente, desse concerto de harmonia e de luz.

 Enlevada nas suas meditações, Maria viu aproximar-se o vulto de um pedinte. “Minha mãe”, exclamou o recém-chegado, como tantos outros que recorriam ao seu carinho —, “venho fazer-te companhia e receber a tua bênção”.

 Maternalmente, ela o convidou a entrar, impressionada com aquela voz que lhe inspirava profunda simpatia. O peregrino lhe falou do céu, confortando-a delicadamente. Comentou as bem-aventuranças divinas que aguardam a todos os devotados e sinceros filhos de Deus, dando a entender que lhe compreendia as mais ternas saudades do coração. Maria sentiu-se empolgada por tocante surpresa. Que mendigo seria aquele que lhe acalmava as dores secretas da alma saudosa, com bálsamos tão dulçorosos? Nenhum lhe surgira até então para dar; era sempre para pedir alguma coisa. No entanto, aquele viandante desconhecido lhe derramava no íntimo as mais santas consolações. Onde ouvira noutros tempos aquela voz meiga e carinhosa?! Que emoções eram aquelas que lhe faziam pulsar o coração de tanta carícia? Seus olhos se umedeceram de ventura, sem que conseguisse explicar a razão de sua terna emotividade. Foi quando o hóspede anônimo lhe estendeu as mãos generosas e lhe falou com profundo acento de amor:

 “Minha mãe, vem aos meus braços!”

 Nesse instante, fitou as mãos nobres que se lhe ofereciam, num gesto da mais bela ternura. Tomada de comoção profunda, viu nelas duas chagas, como as que seu filho revelava na cruz e, instintivamente, dirigindo o olhar ansioso para os pés do peregrino amigo, divisou também aí as úlceras causadas pelos cravos do suplício. Não pôde mais. Compreendendo a visita amorosa que Deus lhe enviava ao coração, bradou com infinita alegria:

 “Meu filho! meu filho! as úlceras que te fizeram!. . .“

 E precipitando-se para ele, como mãe carinhosa e desvelada, quis certificar-se, tocando a ferida que lhe fora produzida pelo último lançaço, perto do coração.

 Suas mãos ternas e solícitas o abraçaram na sombra visitada pelo luar, procurando sofregamente a úlcera que tantas lágrimas lhe provocara ao carinho maternal. A chaga lateral também lá estava, sob a carícia de suas mãos. Não conseguiu dominar o seu intenso júbilo. Num ímpeto de amor, fez um movimento para se ajoelhar. Queria abraçar-se aos pés do seu Jesus e osculá-los com ternura. Ele, porém, levantando-a, cercado de um halo de luz celestial, se lhe ajoelhou aos pés e, beijando-lhe as mãos, disse em carinhoso transporte:

 “Sim, minha mãe, sou eu!… Venho buscar-te, pois meu Pai quer que sejas no meu reino a Rainha dos Anjos. . .”

 Maria cambaleou, tomada de inexprimível ventura. Queria dizer da sua felicidade, manifestar seu agradecimento a Deus; mas o corpo como que se lhe paralisara, enquanto aos seus ouvidos chegavam os ecos suaves da saudação do Anjo, qual se a entoassem mil vozes cariciosas, por entre as harmonias do céu.

 No outro dia, dois portadores humildes desciam a Éfeso, de onde regressaram com João, para assistir aos últimos instantes daquela que lhes era a devotada Mãe Santíssima.

 Maria já não falava. Numa inolvidável expressão de serenidade, por longas horas ainda esperou a ruptura dos derradeiros laços que a prendiam à vida material.

 A alvorada desdobrava o seu formoso leque de luz quando aquela alma eleita se elevou da Terra, onde tantas vezes chorara de júbilo, de saudade e de esperança.

 Não mais via seu filho bem-amado, que, certamente, a esperaria com as boas vindas no seu reino de amor; mas, extensas multidões de entidades angélicas a cercavam cantando hinos de glorificação.

 Experimentando a sensação de se estar afastando do mundo, desejou rever a Galiléia com os seus sítios preferidos. Bastou a manifestação de sua vontade para que a conduzissem à região do lago de Genesaré, de maravilhosa beleza. Reviu todos os quadros do apostolado de seu filho e, só agora, observando do alto a paisagem, notava que o Tiberíades, em seus contornos suaves, apresentava a forma quase perfeita de um alaúde. Lembrou-se, então, de que naquele instrumento da Natureza Jesus cantara o mais belo poema de vida e amor, em homenagem a Deus e à humanidade. Aquelas águas mansas, filhas do Jordão marulhoso e calmo, haviam sido as cordas sonoras do cântico evangélico.

 Dulcíssimas alegrias lhe invadiam o coração e já a caravana espiritual se dispunha a partir, quando Maria se lembrou dos discípulos perseguidos pela crueldade do mundo e desejou abraçar os que ficariam no vale das sombras, à espera das claridades definitivas do Reino de Deus. Emitindo esse pensamento, imprimiu novo impulso às multidões espirituais que a seguiam de perto. Em poucos instantes, seu olhar divisava uma cidade soberba e maravilhosa, espalhada sobre colinas enfeitadas de carros e monumentos que lhe provocavam assombro. Os mármores mais ricos esplendiam nas magnificentes vias públicas, onde as liteiras patrícias passavam sem cessar, exibindo pedrarias e peles, sustentadas por misérrimos escravos.

 Mais alguns momentos e seu olhar descobria outra multidão guardada a ferros em escuros calabouços. Penetrou os sombrios cárceres do Esquilino, onde centenas de rostos amargurados retratavam padecimentos atrozes. Os condenados experimentaram no coração um consolo desconhecido.

 Maria se aproximou de um a um, participou de suas angústias e orou com as suas preces, cheias de sofrimento e confiança. Sentiu-se mãe daquela assembléia de torturados pela injustiça do mundo. Espalhou a claridade misericordiosa de seu Espírito entre aquelas fisionomias pálidas e tristes. Eram anciães que confiavam no Cristo, mulheres que por ele haviam desprezado o conforto do lar, jovens que depunham no Evangelho do Reino toda a sua esperança. Maria aliviou-lhes o coração e, antes de partir, sinceramente desejou deixar-lhes nos Espíritos abatidos uma lembrança perene. Que possuía para lhes dar? Deveria suplicar a Deus para eles a liberdade?! Mas, Jesus ensinara que com ele todo jugo é suave e todo fardo seria leve, parecendo-lhe melhor a escravidão com Deus do que a falsa liberdade nos desvãos do mundo. Recordou que seu filho deixara a força da oração como um poder incontrastável entre os discípulos amados. Então, rogou ao Céu que lhe desse a possibilidade de deixar entre os cristãos oprimidos a força da alegria. Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto descarnado e macilento, lhe disse ao ouvido:

 “Canta, minha filha! Tenhamos bom ânimo!… Convertamos as nossas dores da Terra em alegrias para o Céu!”

A triste prisioneira nunca saberia compreender o porquê da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração. De olhos extáticos, contemplando o firmamento luminoso, através das grades poderosas, ignorando a razão de sua alegria, cantou um hino de profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia sua gratidão pelas dores que lhe eram enviadas, transformando todas as suas amarguras em consoladoras rimas de júbilo e esperança. Daí a instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas de vozes dos que choravam no cárcere, aguardando o glorioso testemunho.

 Logo, a caravana majestosa conduziu ao Reino do Mestre a bendita entre as mulheres e, desde esse dia, nos tormentos mais duros, os discípulos de Jesus têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo e a sua alegria, guardando a suave herança de nossa Mãe Santíssima.

 Por essa razão, irmãos meus, quando ouvirdes o cântico nos templos das diversas famílias religiosas do Cristianismo, não vos esqueçais de fazer no coração um brando silêncio, para que a Rosa Mística de Nazaré espalhe aí o seu perfume!

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Minha vida querida
Malba Tahan

Na última curva da estrada Te-ha-tá parou e olhou para o céu. As montanhas sombrias, cobertas de neve, pareciam gigantes encanecidos que vigiavam silenciosos as fronteiras do Tibete. O sol, já perto do horizonte, retardava a sua marcha como se quisesse receber as últimas preces com que os monges imploravam a misericórdia do Senhor da Compaixão.

A sombra de um vulto surgiu, sobre uma pedra, na margem da estrada. Te-ha-tá tremeu de pavor. Em seu caminho achava-se o impiedoso Han-Ru, o Anjo da Morte, o mensageiro da dor e da desolação.

O coração tem, por vezes, o dom de pressentir a desgraça. Te-ha-tá, ao avistar o Anjo da Morte, lembrou-se de sua noiva, a formosa Li-Tsen-li. Te-ha-tá dirigiu-se, pois, sem hesitar, ao mensageiro cruel do Destino.

- Han-Ru, ó gênio desapiedado! – exclamou. Que procuras aqui, quase à sombra da casa da encantadora Li-Tsen-lí? Bem sei que a tua presença vale por uma sentença de morte.

Respondeu Han-Ru, com a paciência de um enviado do Eterno:

- A tua inquietação é legítima, meu amigo. Vim a este recanto buscar a tua noiva Li-Tsen-li. Chegou, pela determinação do Destino, o termo de sua existência neste mundo. Lí-Tsen-li vai morrer!

- Piedade, Han-Ru! Piedade! – implorou Te-ha-tá. – Ela é tão jovem, e tão prendada! Deixa viver Li-Tsen-li!

O Anjo da Morte meditou em silêncio durante alguns instantes e depois, sem erguer o rosto, disse: – Sei que tens direito a uma vida longa e tranqüila; restam-te, ainda, quarenta e seis anos de vida. Poderás ceder à tua noiva a metade do tempo que te cabe, no futuro, para viver. Li-Tsen-li ficará, portanto, com direito à metade de tua vida e viverá em tua companhia, vinte e três anos. Findo esse prazo, morrerão ambos no mesmo instante? Aceitas essa proposta?

As palavras de Han-Ru fizeram hesitar o jovem Te-ha-tá. Quem, decerto, não ficaria indeciso antes de sacrificar, cedendo a outrem, a metade da própria vida?

- A tua sugestão, Han-Ru, implica uma decisão de infinita gravidade para a minha vida. Não poderei tomar uma decisão nesse sentido, sem, previamente, consultar os meus três grandes amigos. Poderás esperar que eu ouça a opinião daqueles que sempre me auxiliaram e me orientaram na vida?

- Farei como pedes, meu amigo – respondeu o Anjo da Morte. – Até o findar da noite que vai começar, aguardarei a tua palavra final. Deverás voltar, com a tua decisão, à minha presença, antes do amanhecer.

Partiu Te-ha-tá em busca dos amigos, cujos sábios conselhos pretendia ouvir. Deveria ele como noivo sacrificar a metade da sua vida para salvar das garras da Morte a criatura amada?

O primeiro amigo de Te-ha-tá era um artista tibetano de assinalados méritos. Su-Liang sabia esculpir com admirável perfeição, na pedra ou na madeira, e os seus trabalhos eram muito apreciados.

Eis como Su-Liang, o escultor, falou a Te-ha-tá:

- A vida, meu amigo, só tem sentido quando a sua finalidade é traduzida por um grande e incomparável amor. E o amor que dispensa sacrifícios e renúncias não é amor; é a expressão grotesca de um capricho vulgar. Feliz aquele que pode demonstrar a grandeza de seu coração medindo-a pela extensão de um ingente sacrifício. Pela mulher amada deve o homem sacrificar, não apenas a metade de sua vida, mas a vida inteira! Que importa, Te-ha-tá, uma existência longa, torturada pela dor de uma incurável saudade? Preferível, mil vezes, que vivas a metade de tua vida à sombra feliz do amor delicioso de tua eleita. No teu caso eu não teria hesitado, um só instante, em aceitar a proposta do terrível Han-Ru.

O segundo amigo de Te-ha-tá chamava-se Niansi. Era hábil caçador e auferia consideráveis lucros mercadejando peles.

Ao ouvir a consulta do jovem, Nian-si não se conteve.

- É uma loucura, Te-ha-tá! Onde se viu um moço, rico e cheio de saúde, sacrificar a metade da vida por causa de uma mulher? Encontrarás, pelo mundo, milhões e milhões de mulheres lindas. Aqui mesmo (no Tibete) poderás topar, em qualquer aldeia, com centenas de meninas, algumas das quais nada ficariam a dever, julgadas pelos seus predicados de graça e beleza, à tua noiva Li-Tsen-li! Desgraçada a idéia de quereres adiar o termo da existência de uma mulher com o sacrifício de vinte e tantos anos de tua vida! E quem poderá prever o futuro? Amanhã, essa mulher, arrebatada por uma nova paixão e deslembrada do sacrifício que por ela fizeste, abandonar-te-á e irá viver, nos braços de outro, a vida que é a tua própria vida! Que farás, então, vendo-a ceder a um odiento rival os dias roubados ao rosário de tua existência? Penso que não deverias ter hesitado ante a proposta descabida de Han-Ru, repelindo-a no mesmo instante.

A divergência entre os dois amigos mais fez crescer a indecisão e a incerteza no coração de Te-ha-ta.

- Vou ouvir – pensou o jovem – a opinião do prudente Kín-Sa. Só ele poderá indicar-me o caminho a seguir.

Kín-Sa, citado no Tibete como um estudioso das leis e dos ritos, assim falou ao apaixonado noivo:

- Se amas realmente Li-Tsen-li, acho que deves ceder, a essa jovem, a metade do tempo que te resta para viver. Convém, entretanto, impor uma condição. A parcela de vida, depois de cedida a Li-Tsen-li, poderá ser retomada por ti, em qualquer momento. Terás, assim, a tua tranqüilidade garantida no caso de uma infidelidade de tua futura esposa. Se ela, por qualquer motivo, não se mostrar digna de teu sacrifício, perderá o direito ao resto da vida que lhe cabia viver! Fora dessa condicional, qualquer outra solução para o caso não passaria de irremediável loucura!

E concluiu o seu conselho com estas palavras: – Fizeste bem em hesitar. A hesitação é irmã da Prudência. Só os loucos e temerários é que nunca hesitam.

Achou Te-ha-tá bastante prudente e razoável a proposta sugerida pelo douto Kin-Sa, e levou-a, sem perda de tempo, ao conhecimento de Han-Ru, o Enviado da Morte.

Han-Ru aceitou a condição imposta pelo noivo: – Está bem, Te-ha-tá. Aceito a tua proposta. A bondosa Li-Tsen-li vai viver os vinte e três anos. Esta parcela de vida não foi, porém, dada, mas sim “emprestada”.

Passaram-se muitos meses. Li-Tsen-li casou-se com o jovem Te-ha-tá, e os dois eram citados como os esposos mais felizes do Tibete. Li-Tsen-li, depois do casamento, passou a chamar-se Ti-long-li, vocábulo que significa “minha vida querida”.

Um dia, afinal, Te-ha-tá foi obrigado a fazer uma longa viagem para além das fronteiras de sua terra. Deixou Ti-long-li e seu filhinho, que já contava algumas semanas, em companhia de seus pais.

Quando regressou, tempos depois, teve a surpresa de encontrar os seus três amigos que o aguardavam na entrada da pequena povoação.

- Onde está Ti-long-li? – perguntou, ansioso, aos amigos. – Por que não veio? Estará doente? Que aconteceu à Ti-long-li ?

Disse um dos amigos:

- Enche de ânimo e de coragem o teu coração, ó Te-ha-tá ! Uma grande desgraça, há três dias, caiu sobre a tua vida!

- Desgraça? – repetiu, aflito, Te-ha-tá. – horrível esta angústia! Vamos! Quero saber a verdade! Onde está Ti-long-li?

- Morreu!

- Morreu! – gritou Te-ha-tá, desesperado. – Não é possível! Não podia morrer! Eu sacrifiquei por ela, metade de minha vida!

E Te-ha-tá, dominado pela dor e revoltado pelo infortúnio de haver perdido a sua esposa querida, entrou a blasfemar como um possesso, contra o Senhor da Compaixão. Erguia os braços para o céu; rolava, por vezes, sobre a terra. Insultava o nome do Criador. Os amigos afastaram-se, cautelosos. Era preciso deixar o infeliz Te-ha-tá dar plena expansão à indizível angústia que lhe esmagava o coração.

Em dado momento Te-ha-tá viu surgir diante de si a figura de Han-Ru, o Anjo da Morte.

- Han-Ru! – bradou, num tom de incontido rancor. – Faltaste com a tua palavra. Que fizeste de Ti-long-li?

- Escuta, Te-ha-tá – respondeu Han-Ru. – Preciso dizer-te a verdade, para que não continues a blasfemar desse modo. A tua esposa deveria viver vinte e três anos. Um dia, porém, o seu filhinho adoeceu gravemente. O pequenino ia morrer. Que fez a tua esposa? Pediu, em preces, que a sua vida fosse dada ao filhinho enfermo para que ele pudesse viver! Salvou-se o teu filho, mas tua esposa morreu!

E, ante a estupefação de Te-ha-tá, o Anjo da Morte concluiu:

- E enquanto tu, como noivo, hesitaste em ceder a metade de tua vida, ela, mãe extremosa, não hesitou um segundo em dar, pelo filhinho, a vida inteira!

Publicado por: Pedro Tavares | Abril 15, 2009

A Tribuna

Do alto da Tribuna, a voz vestida
De anjo, de guardião, de estrela guia,
Falando da morte como quem vida,
Falando em prosa como quem poesia…

Do alto da Tribuna, a voz temida.
A multidão silenciava e ouvia.
Nem medo nem rancor, a voz… Despida
De preconceito, de hipocrisia…

Do alto da Tribuna, como um raio.
Dali do alto como num ensaio
Para a outra vida que o aguardava…

Do alto da Tribuna, como um mito.
Dali do alto sempre. Como um rito.
Era dali que ele nos encantava.

Luís Alberto Mussa Tavares.
13 de abril de 2005.
Homenagem ao seu pai, Clóvis Tavares, no 21° aniversário de sua desencarnação.

Publicado por: Pedro Tavares | Abril 13, 2009

Saudade

Hoje completam-se 25 anos da desencarnação de Clóvis Tavares, fundador de nossa Escola Jesus Cristo.

Em sua primeira carta psicografada por Chico Xavier, uma frase chama a atenção: “A Saudade é o metro do Amor”.

Há 25 anos, seu filho Luís Alberto Mussa Tavares, médico pediatra e poeta, compôs uma música em sua homenagem. Também nós fazemos uso deste belíssimo poema em homenagem àquele que foi facilitador do nosso encontro com Jesus Cristo…

A Saudade

A saudade é como um verso
Que depois de escrito não se pode ler,
É um sol sem brilho, um mar sem ondas,
A saudade é tarde sem entardecer.
É estar contigo sempre,
E, na tua presença, não poder te ver.
A saudade é um sofrimento,
É mais do que sofrer…
Ah! Sentir saudade… voz
Que diz o coração pra desaparecer.
E sumindo pouco a pouco,
Tão pequeno, a gente começa a morrer…
Mas a saudade não mata,
É luz de vela viva, e faz a gente ver
Que a saudade é outro coração
Que a gente tem, que faz o coração bater…

Luís Alberto Mussa Tavares

Publicado por: Pedro Tavares | Março 29, 2009

Andressa

Publicado por: Pedro Tavares | Março 28, 2009

Não existem corruptos

Flávio Mussa Tavares
Campos dos Goytacazes, 28 de março de 2009
Monitor Campista

Cheguei à surpreendente conclusão de que não existem corruptos. Pode parecer estranho essa afirmação em uma sociedade que vive saturada de notícias de corrupção em todos os níveis de administração pública, privada e público-privada. Há queda dos índices de desenvolvimento econômico-social, gerada pelo desvio do capital aplicado no setor público.

Há maior morbidade por epidemias por causa da dissipação de verbas para saneamento básico. Há maior mortalidade infantil por desnutrição. Se essas são consequências diretas da corrupção, então, não há corruptos, há assassinos! Considerar pessoas inescrupulosas, que se locupletam com desvios de verbas como “corruptos”, pode ser um grande eufemismo.

Banalizou-se a corrupção! A prática disseminou-se de tal forma que é comum considerá-la “normal”. Aplica-se aqui o aforismo bíblico: “Por muito se praticar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.” (Mt 24:12). O verbo esfriar é iterativo, indica uma ação continuada e progressiva. Se algo esfria, leva um tempo, há uma duração. O homem comum deixa esmorecer a esperança, a fé e o amor por testemunhar a maldade, a injustiça e o descalabro social.

Assistir a noticiários com sucessivas exposições da amoralidade do ser humano, da falta de caráter, da insinceridade e da impiedade social, tem um resultado que vai além de suas consequên-cias diretas, acima expostas. Há ainda a consequência moral. A consequência direta é a morte de pessoas. A consequência moral é a morte de almas.

Portanto, não existe a figura eufêmica do corrupto. Existe o assassino de crianças. Existe o causador de abortos criminosos nas gestações frustradas por desnutrição. Existe o assassino de idosos que tem os programas sociais suspensos pela malversação de verbas. Existe o assassino por doenças epidêmicas, cujo controle depende de vontade política. Existe o assassino por desastres sociais e econômicos gerados por desemprego. Existe o assassino do futuro de muitos jovens. Existe o assassino, enfim, da fé, da esperança e do amor, dons divinos, expropriados da alma humana por aqueles que não podem ser quase que ingenuamente chamados de “corruptos”. São assassinos!

Publicado por: Pedro Tavares | Março 22, 2009

Deus na Natureza

SENTINDO DEUS NA NATUREZA

Camille Flammarion (1842-1925). Astrônomo francês. Como médium colaborou com Kardec na codificação espírita. Escreveu vários livros de cunho espiritista. Fotografou uma mesa em levitação

Uma tarde de verão, deixara eu as flóreas vertentes de Sainte-Adresse, deliciosa vila litoreana recortada em colinas, para galgar as grimpas do cabo Heve, que ao poente lhe demoram. Quando, de sua base contemplamos os cabeços desses penhascos, acreditamos estar vendo colossos de granito avermelhados pelo sol, quais gigantes imóveis que assistissem, petrificados, aos bramidos do oceano que vêm morrer a seus pés. No seu isolamento, esses maciços enormes e inacessíveis pelo lado do mar, parecem talhados para dominar o soberbo panorama. A seu lado, fronteando o oceano, o homem sente-se tão insignificante que acaba perdendo de vista a própria existência e confundindo-se com a vida abstrata, que paira acima dos bramidos oceânicos.

Sempre a subir, cheguei ao plano superior, onde ficam os semáforos que avisam, longe, aos navios o movimento horário das vagas costeiras, e onde os faróis se acendem à boca da noite, quais estrelas permanentes na amplidão das trevas. O Sol, glorioso, ainda se pendurava rubro das nuvens incendidas, posto que já oculto para o Havre e para as planuras que bordam o estuário do Sena. Ao alto, o céu azul me coroava com a sua pureza. Em baixo, a mata, fervilhante de insetos, exalava em ondas o seu perfume. Caminhei até à escarpa, ao fundo da qual se mostram os abismos. Do cairel da rocha em vertical, o olhar domina a imensidão dos mares, desdobrados à esquerda, de sueste a nordeste. Mergulhando-o perpendicularmente, ele se perde na profundeza de massas verdes, rochedos e brenhas escuras – tapete rústico estendido a trezentos pés abaixo dos contrafortes dessa muralha. O gemido das vagas mal nos chega nestas alturas, nosso ouvido apenas percebe um rumor uniforme, que o vento gradua de intensidade. É um silêncio que canta, longe do mar.

- A Natureza estava atenta ao derradeiro adeus, que o príncipe da luz enviava ao mundo, antes que descesse do seu trono para sumir-se no horizonte líquido. Calma e concentrada, ela assistia à prece universal dos seres, pois que eles a fazem – santa prece do reconhecimento – ao receberem os últimos olhares do Sol. E todos, desde a flébil e solitária medusa e a estrela-do-mar policroma, até os gafanhotos saltitantes e os alcíones de neve; todos lhe agradecem piedosamente. Era, então, um como incenso a subir das vagas e dos montes, parecendo que os ruídos temperados da plaga, a brisa que soprava do continente, a atmosfera embalsamada, a luz palescente na serenidade do céu azul, o refrigério crepuscular e tudo o mais tinha, naquele sítio, consciência de vida, comungando contrita e amorosamente da adoração universal.

Mentalmente, nesse holocausto da Terra, eu sentia as recíprocas atrações dos mundos; não apenas as que alternativamente afastam e aproximam nosso orbe do foco solar, como as de todos os astros que gravitam na imensidão dos céus. Acima de minha cabeça, desdobravam-se as sublimes harmonias e as gigantescas translações dos corpos celestes! A Terra era qual átomo flutuante no infinito! Deste átomo, porém, a todos os sóis do espaço, àqueles cuja luz leva milhões de anos para chegar até nós, aos que jazem desconhecidos para além da nossa visibilidade, eu sentia um laço invisível abrangendo, num só halo vivificante, todos os universos e todas as almas. E a prece celestial, grandiosa, imensurável, tinha a sua repercussão, a sua estrofe, a sua representação visível naquela vida terrena que palpitava em torno de mim, no rugido do mar, no perfume das selvas, no canto das aves, na melodia confusa dos insetos, no conjunto emocionante do cenário e, sobre tudo, na luminosa tonalidade daquele extraordinário crepúsculo!

Fitava-o embevecido, sim… mas, sentia-me tão pequeno no meio de tantas graças e grandezas, que acabei por entristecer-me. Senti como que se esvanecer a minha personalidade diante da imensidade da Natureza. Não me tardou a impressão de já não poder falar, nem pensar.

- O vasto mar fugia para o infinito. – Eu não mais existia, meus olhos se velavam… E, como as faces se me inundavam de prato, sem que me pudesse explicar porque chorava, ajoelhei-me e, prosternado ante o céu, confundi minha fronte com as ervas… – o mar fugia sempre e os seres continuavam em prece.

E o Sol, fonte dessa luz e dessa vida, espiou uma última vez lá da faixa marinha do horizonte, como que satisfeito com aquela homenagem que nem um ser ousara recusar-lhe… E assim, contente da jornada, mergulhou orgulhoso no hemisfério de outros povos.

Fez-se, então, grande silêncio em toda a Natureza. Nuvens de ouro e púrpura evolaram-se às paragens reais e ocultaram os últimos timbres avermelhados. A sombra descia do alto. As ondas adormeceram, porque o vento abrandara. Os pequeninos seres alados adormeceram também, e Vésper, núncia da noite, começou a luciluzir no éter.

“Ó misterioso Incógnito! – exclamei – grande, imenso Ser, que somos nós, pois? Supremo autor da harmonia, quem és tu, se tão grandiosa é a tua obra? Pobres mitos humanos os que supõem conhecer-te – ó Deus! Átomos, nada mais que átomos, como somos ínfimos! E como tu és grande! Quem, pois, ousou nomear-te pela primeira vez? Que orgulhoso insensato pretendeu definir-te, ó Deus! – ó meu Deus, todo poder e ternura, imensidade sublime e inconcebível!

E, como qualificar os que vos têm negado, que em vós não crêem, que vivem fora do vosso pensamento e jamais sentiram vossa presença – ó Pai da Natureza!

Amo-te! amo-te! Causa superna e desconhecida, Ser que palavra alguma pode traduzir, eu vos amo, divino Princípio! mas… sou tão pequenino, que não sei se me ouvireis, se me entendereis…”

Como estes pensamentos se precipitavam fora de mim, para fundirem-se na afirmação grandiosa de toda a Natureza, as nuvens se esgarçaram no poente e a radiação áurea das regiões iluminadas inundou a montanha.

“Sim! tu me ouves, ó Criador! tu que dás a beleza e o perfume à florinha silvestre! A voz do oceano não abafa a minha voz e meu pensamento a ti se eleva, ó Deus! com a prece coletiva”.

Do todo do Cabo, minha vista se estendia ao Sul como ao Ocidente, na planície como sobre o mar. Voltando-me, lobriguei as cidades humanas, meio adormecidas nas plagas. No Havre, as ruas comerciais se iluminavam, e além, na margem oposta, Trouville acendia o seu parque de diversões.

E enquanto a Natureza se mostrava reconhecida ao seu Autor com o saudar à missão de um dos seus astros fiéis; enquanto todos os seres lhe enviavam suas preces e o rugido dos mares misturava-se ao vento, em ação de graças ao termo de um belo dia; enquanto a obra criada, unânime e recolhida, se oferecera ao Criador, a criatura imortal e responsável – ser privilegiado da Criação, expoente do pensamento – O Homem, vivia à margem, indiferente a tantos esplendores, sem olhos de ver nem ouvidos de ouvir, parecendo ignorar essa harmonia universal, em cujo seio deveria encontrar a sua felicidade e a sua glória.

Camille Flammarion,  Deus na Natureza

Publicado por: Pedro Tavares | Março 3, 2009

Orson Peter Carrara entrevista Flávio Mussa Tavares

ORSON PETER CARRARA
http://www.oconsolador.com.br/ano2/96/entrevista.html

“Meu pai marcou pela correção de seu proceder na vida e pela lealdade aos princípios cristãos e espíritas”
Flávio Mussa Tavares

Filho do saudoso escritor Clóvis Tavares, Flávio Mussa Tavares
fala sobre a pessoa e a obra de seu pai, autor de obras
espíritas importantes e um dos pioneiros das
mocidades espíritas no Brasil.

Nosso entrevistado, Flávio Mussa Tavares (foto), é filho do notável escritor e palestrante espírita Clóvis Tavares, que deixou expressiva contribuição literária para expansão do pensamento espírita. Flávio nasceu e reside em Campos dos Goytacazes (RJ), vincula-se à Escola Jesus Cristo, que atualmente preside.

Nascido em berço espírita, tem três livros publicados: Mandamentos de Deus, A Morte é simples mudança e Célia Lúcius, Santa Marina. Nas respostas do entrevistado, um pequeno resgate da memória do saudoso Clóvis.

O Consolador: Clóvis Tavares é um nome respeitado na literatura e no movimento espírita. Faça uma síntese biográfica dele.

Nasceu na localidade de São Sebastião, distrito de Campos, no dia 20 de janeiro de 1915, dia de São Sebastião. Viveu uma infância católica, ao lado do Padre francês, Emmille Des Touches. Na juventude, integrou um grupo de jovens que combatiam a exploração do homem pelo homem e foi dirigente político do PCB. Após a morte de sua noiva, tornou-se espírita ao reconhecê-la numa comunicação mediúnica com muitos traços de autenticidade, bastante para convencer um jovem dogmático e ateu. Após sua conversão, funda a Escola Jesus Cristo à qual dedicou-se até os 69 anos, quando desencarnou na mesma cidade.

O Consolador: Quais foram os livros que ele publicou?

Escreveu uma série de livros infantis: Dez Mandamentos, Histórias que Jesus Contou, Meu Livrinho de Orações, Vida de Allan Kardec para a Infância. Escreveu também biografias: João Batista, Vida de Pietro Ubaldi, Trinta Anos com Chico Xavier, Amor e Sabedoria de Emmanuel. Escreveu ainda livros com conteúdo filosófico-religioso: De Jesus para os que Sofrem, Sal da Terra, Rocha dos Séculos. Publicou livro de pesquisa biográfica e mediúnica: Mediunidade dos Santos. E um livro em parceria com Chico Xavier: Tempo e Amor. Uma nota triste é que a LAKE, que publica os livros infantis, adulterou à sua revelia o conteúdo do livro Meu Livrinho de Orações.

O Consolador: Como ele se tornou espírita? Ele chegou a fundar instituições? A qual se vinculou mais diretamente?

A sua profissão de fé, solenemente entregue à Federação Espírita Brasileira, na pessoa do Dr. Guillon Ribeiro, deu-se após uma comunicação do Espírito de Nina Arueira, sua noiva prematuramente desencarnada. Logo após, seguindo diretrizes espirituais, fundou a Escola Jesus Cristo. Foi a única instituição espírita à qual se vinculou.

O Consolador: Quem foi Nina Arueira na vida de Clóvis e que influência exerceu sobre ele?

Nina Arueira era uma jovem destemida e avançada no tempo, que viveu em Campos na década de 30. Escrevia artigos para os jornais da cidade, fazia conferências em teatros, liderava movimentos estudantis e operários até que vitimou-se de uma febre tifoide que a internou por alguns meses na casa de um senhor espírita que conseguiu convencê-la da verdade espiritual do ser humano e da justiça divina através da lei da reencarnação e de causa e efeito. Após sua morte, o choque emocional de meu pai fê-lo procurar uma senhora em Campos que transmitiu os recados para ele, na mesma forma e na língua em que eles se escreviam particularmente: inglês. A partir daí, conheceu Chico Xavier, o que mudou para sempre seu destino.

O Consolador: E como foram o encontro e a convivência com Chico Xavier e Pietro Ubaldi?

Chico Xavier e meu pai se conheceram em 1936, mas passaram a se visitar e trocar correspondência a partir de 1938, o que durou até 1983. De Chico escreveu meu pai um livro de memórias que traz muitas verdades escondidas nas entrelinhas: Trinta Anos com Chico Xavier e Amor e Sabedoria de Emmanuel. As cartas são um repositório de sabedoria. Pietro Ubaldi foi seu correspondente de 1950 até início de 1972. Meu pai traduziu dele As Noúres, Ascese Mística e Problemas Atuais.

O Consolador: Após a desencarnação, ele enviou mensagens?

Meu pai enviou 6 cartas mediúnicas através de seu amigo Chico Xavier, que em breve devem ser publicadas com os devidos comentários num livro que se chama “A Saudade é o Metro do Amor”.

O Consolador: Suas palestras eram caracterizadas pela eloquência e grande inspiração. Comente sobre isso. Elas foram transformadas em livros?

Suas palestras eram doutrinárias e evangélicas. Falava com o coração e empolgava e sensibilizava a muitos. Além dos livros que já preparamos com suas palestras, Rocha dos Séculos e Sal da Terra, estamos em contato com o produtor de vídeo Oceano Vieira de Melo, que está juntando material para um documentário em DVD sobre a vida e a obra de Clóvis Tavares, que deve ser lançado em 2010.

O Consolador: Comente a pesquisa de seu pai sobre a personagem Célia do célebre romance 50 Anos Depois, de Emmanuel.

Papai pesquisava em livrarias do Rio e nos sebos as vidas dos santos, para descobrir se eles foram médiuns e que tipos de mediunidade tinham. Um dia encontrou uma pequena brochura a respeito de certa Santa Marina, que havia vivido em Alexandria. Ao ler a pequena biografia, percebeu tratar-se exatamente de Célia Lúcius, que no mosteiro passou a chamar-se Irmão Marinho e que após sua morte, descoberta sua real identidade, foi chamada Santa Marina. E ele enfatizava como poderia o Chico conhecer este mundo inesgotável de sabedoria, cultura e ciência? Ajuntando seus apontamentos, lancei em 18 de junho de 2008, dia consagrado na Igreja católica, em Veneza, a Santa Marina, o livro que relata as coincidências do livro 50 Anos Depois com os diversos textos das igrejas católica, maronita do Líbano, ortodoxas grega e russa.

O Consolador: Como filho, quais os aspectos mais marcantes da convivência com Clóvis, tanto no âmbito familiar como nas atividades espíritas?

Papai marcou pela correção de seu proceder na vida, pela lealdade aos princípios cristãos e espíritas e acima de tudo por viver absolutamente em consonância com os princípios que pregava. Em família, era um pai zeloso e sempre disponível para as nossas necessidades materiais e espirituais.

O Consolador: E sobre o livro A Mediunidade dos Santos, o que você tem a dizer?

Mediunidade dos Santos é, segundo Chico Xavier, “a obra-prima do Clóvis”. Todas as informações ali contidas foram confirmadas por meu pai após a sua desencarnação, quando ele se encontrou com alguns dos seus biografados no plano espiritual. Isso ele relata em algumas de suas comunicações pelo lápis de Chico Xavier, que estão inseridas no livro A Saudade é o Metro do Amor, a publicar.

O Consolador: As obras Amor e Sabedoria de Emmanuel e Os Dez Mandamentos, marcantes na visão deste entrevistador, podem ser consideradas marcos na produção literária do autor?

São momentos bem diversos. A primeira foi um preito de gratidão ao nobre Espírito Emmanuel, que traz notícias e revelações. Foi o último livro que escreveu e que viu publicado. Já o segundo foi o seu primeiro trabalho publicado, dirigido especialmente ao público infantil, que necessita conhecer os detalhes da primeira revelação. Se a criança aprende a ética judaica expressa no Decálogo, entendia ele, ela está igualmente preparada para absorver a ética do Sermão da Montanha e, após isso, das Leis Morais, de O Livro dos Espíritos.

O Consolador: Todos os livros que ele escreveu estão disponíveis ou muitos se encontram esgotados?

Quase todos se encontram nas livrarias e distribuidoras, com exceção de Sal da Terra, que foi uma edição limitada e que em seis meses esgotou-se. Estamos à procura de uma editora que o publique.

O Consolador: Acrescente informações que você julga importantes para conhecimento dos nossos leitores.

Meu pai fundou dois orfanatos na Escola Jesus Cristo. Um feminino, que permaneceu por mais de 50 anos, e outro masculino que durou menos, e que foi dirigido por ele mesmo. Educou dezenas de meninos e meninas, usando sempre uma recordação do Dr. Bezerra de Menezes: “Nada Pedir, Nada Reclamar”. Fundou em consonância com Leopoldo Machado uma das primeiras Mocidades Espíritas do Brasil em 1940 e iniciou, ainda na década de 30, um estudo sistematizado da Codificação Espírita que permanece até hoje, seguindo o seu modelo, sem férias e aberto à comunidade.

O Consolador: Suas palavras finais.

Espero que possamos reconhecer os fundamentos doutrinários do Espiritismo, vivê-los de modo simples e multiplicá-los. Multiplicar bênçãos é um dever de todos que entenderam a parábola do Semeador. E assim, espalhando conhecimento, alegria e fraternidade, foi o que o meu pai fez.

Publicado por: Pedro Tavares | Dezembro 25, 2008

Bilhete de Natal

Meu amigo, não te esqueças,
Pelo Natal de Jesus,
De cultivar na lembrança
A paz, a verdade e a luz.

Não olvides a oração
Cheia de fé e de amor,
Por quem passa, sobre a Terra,
Encarcerado na dor.

Vai buscar o pobrezinho
E o triste que nada tem…
O infeliz que passa ao longe
Sem o afeto de ninguém.

Consola as mães sofredoras
E alegra o órfão que vai
Pelas estradas do mundo
Sem os carinhos de um pai.

Mas escuta: Não te esqueças,
Na doce revelação,
Que Jesus deve nascer
No altar do teu coração.

Xavier, Francisco Cândido. Da obra: Antologia Mediúnica do Natal. Ditado pelo Espírito Casimiro Cunha. FEB.

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